quinta-feira, 19 de novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

Morreu e renasceu mil vezes.
Acordou no meio das rochas à beira mar. Chovia.
Rasgou o peito e deixou que a chuva impregnada de sal das ondas que rebentavam à sua frente lhe lavasse o coração.
No horizonte viam-se os barcos dos pescadores que passaram a noite na faina a regressar à praia antes que o temporal se adensasse.
Tinha fome, pegou no arco e nas flechas e embrenhou-se na mata que abrigava a praia.
Devia ser o seu dia de sorte, em menos de nada já tinha uma lebre. Esfolou e preparou a carcaça e acendeu uma fogueira para a assar.
Pouco antes de terminar o seu manjar, foi interrompido por ruídos detrás de um arbusto. Apressou-se a sacar do punhal, mas antes que o pudesse fazer o seu espião revelou-se. Uma sombra escura e corpulenta, certamente com mais de seis pés de altura, ergueu-se. Tremeu, um enorme urso, certamente atraído pelo cheiro de uma refeição fácil, preparava-se agora para o atacar. Restava-lhe uma única hipótese: correr! Assim fez, sentido sempre o peso das patadas do animal no seu encalço. Não tinha ainda corrido muitos metros, quando deu por si à beira de um precipício. Lá em baixo estava o mar e, pareceu-lhe, as rochas onde se abrigara para passar a noite. Voltou-se. O urso aproximava-se agora de forma lenta e calculista, sentindo a sua presa encurralada.
Hesitava entre deixar-se cair pelo penhasco ou saltar para as garras do animal quando, num breve instante, reparou que ao seu lado, quase rente ao chão, estava uma amora madura, negra, brilhante e carnuda. Um único fruto pendente daquela silva. Enquanto o seu perseguidor continuava a aproximar-se baixou-se, colheu o fruto e saboreou-o, exclamando:
- Que fruto tão saboroso!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

História a 3 tempos

Nasceu num dia como outro qualquer, numa terra não muito longe daqui, onde o Sol nascia e se punha todos os dias, num tempo em que ainda se acreditava. Cresceu atento, preocupado, calculando... Aos 14 anos saiu de casa levando apenas pão, chouriço, as recomendações paternas e as preocupações da progenitora. Saiu, encetando a busca que toda a Vida sonhara e para a qual tantos cálculos fizera. Indagou, cruzando ruas e ruelas, campos, cidades e ilhas, por tempo indeterminado, nunca perdendo a esperança. Momentos houve, contudo, em que lhe pareceu uma busca sem fim. Troçaram dele e do seu sonho mas isso não bastou para o demover. Avançou, procurou, lutou, penou, fraquejou, caiu, ergueu-se!
Naquela manhã, igual a tantas outras, caminhava perdido nas ruas de uma grande cidade e eis que, mesmo ali na esquina, estava Quem tanto procurou... no sitio mais improvável, ali estava Ele! Tantos cálculos, tantas perguntas sem resposta e afinal poderia ter sido tão fácil. Uma figura alta, bem constituído, um ar sábio e sereno. Cachimbo pendendo da boca, barba e bigode brancos amarelecidos pelo tabaco, numa mão uma bengala de bambu, na outra uma garrafa de vinho menos de meia.
Correu em direcção ao Velho, quando estava mesmo próximo, ajoelhou-se:
- Senhor, procurei tanto tempo, por toda a parte...
- Levanta-te interrompeu-o Velho.
Levantou-se e continuou:
- Finalmente!
- Que Me queres?- perguntou o Velho, interrompendo-o de novo.
- Oh, busco apenas a resposta a uma questão. Uma resposta que apenas o Senhor pode saber.
- Força! Dispara! -retorquiu o Velho com indiferença.
- Algo que sempre quis saber... rogo-Lhe que me responda e me ajude, Senhor!
- Sim...? Não posso responder se não souber a pergunta!
- Qual o significado da Vida?
- Olha ali... - disse o Velho apontando para as costas do homem que tanto o procurara.
Ele voltou-se para trás:
- Onde? - Não via nada particularmente interessante e quando se voltou de novo o Velho já não estava.
Esquerda, direita, voltas e mais voltas, correu, gritou e por fim, prostrado, deixou-e cair na mesma esquina onde O havia visto...
- Porquê? - sussurrou.
Ali ficou dias, meses... talvez anos, ele não sabe.
Um dia, uma mão macia e quente tocou-lhe no ombro descoberto pelo estado miserável dos seus trapos. A pele branca da mão dela contrastava com o ombro enegrecido, pela sujidade e pelo Sol, dele.
- Anda, levanta-te... vem comigo. - Disse-lhe com uma voz rouca mas cheia de mel, apenas comparável ao belo e fatal canto das sereias que tentaram atrair Ulisses a uma morte certa.
Ele fitou-lhe os olhos, correndo o risco de ser injusto, direi apenas que os achou encantadores. Reuniu as forças que lhe restavam e levantou-se. Acompanhou-a pelas ruas de braço dado. Teria ido até ao fim do Mundo assim.
Chegaram a um prédio rústico de três andares, subiram as escadas até ao sótão. Ela meteu a chave na fechadura e rodou, ele manteve-se sereno e calado, um passo atrás dela, enquanto observava cada movimento. Entraram e ela encaminhou-o de imediato para a casa de banho minúscula, como o era, aliás, todo o andar. Despiu-o e deu-lhe banho, embrulhou-o numa toalha e mandou-o ficar ali enquanto ela própria se despia e se banhava.
Ele observou-a fascinado, nunca vira uma mulher nua. A água percorria-lhe as curvas voluptuosas, de seguida veio a espuma contornando os mamilos rosados, saltitando pelas nádegas arrebitadas. Sentiu algo entre as pernas, já o sentira antes, mas não em circunstâncias semelhantes. Abriu a toalha para ver o que se passava, ela mirou-o nesta altura com uns olhos de menina atrevida. Apercebendo-se, ele atirou com a toalha ao chão e, sem saber muito bem porquê, entrou no duche e agarrou-a. Entregaram-se. Nas noites que se seguiram entregaram-se uma e outra vez, no quarto minúsculo, na sala minúscula e na cozinha minúscula. Voltaram a faze-lo no duche. Dessa vez, depois de terminado ela saiu de casa, coisa que não fazia desde que ele ali chegara.
O Sol pôs-se, vieram as estrelas e a Lua, voltou o Sol, mas dela nem sinal... Esperou nu na cama. Ela não mais apareceu...
Foi invadido por saudade súbita e extremamente forte.
Minha mãe, meu pai como estarão?
Revolveu o minúsculo apartamento em busca de roupa que lhe servisse: umas calças largas de homem e uma camisa velha e demasiado justa tiveram de servir.
Saiu e correu pelas escadas e correu, correu, correu como nunca tinha corrido antes. Só parou quando reconheceu a montanha que isolava a sua terra-natal do resto do Mundo. Nessa noite dormiu, sonhou com o calor da recepção de seus pais, sonhou com a sua cama aconchegante e agora, certamente, pequena de mais para ele. Teriam tido mais filhos? Haveria irmãos? Oh, que maravilhoso seria!
Acordou ainda o Sol não tinha nascido e correu de novo, correu...
Já conseguia ver a aldeia, embrenhou-se, finalmente, nas suas ruas de pó encarnado. Quando chegou ao largo principal o seu mundo desabou, sentiu um calor dilacerante a subir-lhe do estômago, como se tivesse sido envenenado, a cabeça andou à roda e desmaiou. A casa, a sua casa, já não existia, no seu lugar apenas ruínas.
Quando acordou do desmaio, rodeado de aldeões, olhou de novo para as ruínas e fez perguntas a todos, novos e velhos! Ninguém se lembrava de quem habitara aquela casa, estava assim desde que o mais velho dos anciões se recordava. A custo levantou-se. Ao caminhar para as ruínas mirou-se no reflexo de uma janela, envelhecera muito desde que partira dali. Passou o local onde estaria a porta de entrada, viu sua mãe a sorrir-lhe, do local onde fora a cozinha, enquanto preparava o seu guizado preferido. Caminhou mais um pouco e, do pátio central, o pai acenou-lhe eufórico, correu para lá e abraçou-o. Estava demasiado cansado, desculpou-se, voltou para o interior da casa e foi-se deitar na sua velha cama... ali ficou a ver as silvas e as ervas crescerem-lhe por cima do corpo magro e lívido.
Ninguém já se recorda quanto tempo ficou aquele estranho homem ali, mas todos se lembram do dia em que desapareceu.
Imediatamente antes do Sol nascer, ergueu-se com os olhos no infinito, muitos juram que já cegara derivado às privações que sofrera, e caminhou com passos constantes e firmes em direcção ao mar. Chegado à areia parou, inspirou profundamente e retomou a marcha, desta feita mar adentro. Os mesmos passos firmes com que ali chegara. O mar estava calmo, quase não havia ondas e o homem caminhava. Caminhou até que a sua cabeça foi engolida pela serenidade do oceano.
O seu corpo nunca deu à costa, ninguém sabe quem foi, o que o moveu ou quais as suas conquistas. "Desapareceu numa madrugada fria." é tudo quanto sabem dizer.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O barulho da água a correr no chuveiro... Abriu os olhos... 7:35!
Merda!
- Porque não me acordaste? Vou chegar atrasado outra vez!
Da casa de banho não chegou resposta.
Merda! Merda! Merda!
Num ápice enfiou as calças bege e a camisa azul, sem apertar os botões correu para o WC, mãos em concha, água fria na cara, uma reclamação em forma de berro vem da banheira.
- Desculpa! Estou atrasado! Porque não me acordaste??
De novo, não teve resposta.
Uns salpicos na retrete, nova corrida até ao quarto. Calçou as meias.
Onde está o outro sapato? Merda! Sempre a mesma merda!
- Porque não puxaste o autoclismo? Sempre a mesma porcaria!
- Desculpa! Estou atrasado, não tenho tempo!
Um resmungo imperceptível foi a resposta.
Ah! Aqui está!
Calçou-se, abotoou-se e passou pela cozinha onde agarrou uma fatia do bolo de ananás para o caminho. Saiu a correr, não sem antes ouvir mais um grito imperceptível vindo do quarto.
- Estou muito atrasado, desculpa! Também te amo! - respondeu, ao mesmo tempo que batia com a porta!


Eram 7 da manhã, acordou com o barulho do despertador dele.
Sempre a mesma porcaria... hoje não te vou acordar! Tens de aprender...
Foi até à casa de banho, mirou-se demoradamente ao espelho, sem se reconhecer. Perguntou-se mil vezes o que fazia ali, sempre sem ter resposta.
Tirou a camisa de dormir e lançou-se debaixo da água quente que jorrava do chuveiro.
O que estou a fazer aqui?
Vindo do quarto:
- Porque não me acordaste? Vou chegar atrasado outra vez!
Não respondeu.
Enquanto não fores despedido não vais aprender...
Breves minutos depois sentiu-o entrar na casa de banho e abrir a torneira, a agradável água quente do duche transformou-se numa torrente escaldante que lhe queimou as costas.
- Merda! És parvo ou quê?
- Desculpa! Estou atrasado! Porque não me acordaste??
Uma vez mais, optou por não responder.
É para aprenderes... não sou a tua mãezinha! Palerma...
Quando ele saiu a correr do WC deu por terminado o seu duche.
Porco! Sempre a mesma merda!
- Porque não puxaste o autoclismo? Sempre a mesma porcaria! - Gritou.
- Desculpa! Estou atrasado, não tenho tempo!
- Não aguento mais! Não aguento... - Resmungou entre dentes.
Secou-se.
Sentiu que ele se preparava para sair, saiu a correr do WC e gritou:
- Não aguento mais! Vou fazer as malas, vou-me embora! Ouviste?
- Estou muito atrasado, desculpa! - Foi tudo o que ouviu.

domingo, 30 de agosto de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

As horas passadas em frente a este ecrã, o cursor a piscar, à espera de conseguir discorrer algo. Largar palavras, frases.
Não, hoje não consigo!
Há dias em que nem as palavras e as letras servem de consolo. Geralmente não custa nada esconder-nos atrás delas e deixar que falem por nós, que digam aquilo que não somos capazes de dizer com a alma ou com os olhos. Desses sim, saem as mais verdadeiras emoções, as que não precisam de ser deformadas pelas línguas, lápis ou teclados. Há sentimentos que nem com todas as palavras do Mundo conseguem ser explicados.

Decididamente, hoje não. Não desfigurarei nada. Fico-me por aqui...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Querida Anne,

A dificuldade que tenho habitualmente em expressar-me oprime-me ainda mais quando estamos ambos, sós, fechados naquele quarto olhando o céu estrelado. De certo me tomarás por indiferente ou insensível, mas não o sou. Não tem sido fácil este ano e meio, para nenhum de nós. Meus pais, como toda a gente neste sitio já reparou, não cessam as suas hostilidades, não só um para com o outro, mas também para com o resto dos habitantes, onde me incluo. As suas provocações ferem-me como lâminas afiadas. Não respondo porque sei que apenas iriam provocar mais conflitos e mau-estar.
É em ti e contigo que consigo ser eu mesmo e esquecer-me por momentos da situação dramática em que esta guerra nos colocou. As horas que passamos juntos a estudar ou ,deverei antes dizer, que passas a martelar o inglês na minha cabeça dura, parecem nunca ter fim... preferia que durassem sempre, só tu e eu. As privações a que nos temos sujeitado fizeram de mim mais homem, já não sou o pirralho mimado e preguiçoso de há um ano e meio e em muito o devo a ti! Admiro-te pela coragem e força que sempre demonstraste, desde o primeiro dia, enfrentando tudo e todos para defender aquilo e aqueles em que acreditas. Vejo-te como um exemplo a seguir e aguardo o dia em que a minha força e inteligência possam chegar aos calcanhares das tuas, então, talvez, me possas olhar com outros olhos. Ver-me como um homem. Um homem que vê em ti uma mulher e que te quer mais que tudo.
As ultimas semanas, que temos passado juntos no quarto do sótão, têm-me deixado completamente fora de mim, sinto vontade de ao menos te abraçar. Sei que não tolerarias tamanha ousadia e provavelmente perder-te-ia, sei que não faço o teu género. Vês em mim, tão somente, um bom companheiro, dentro das restritas possibilidades que se encontram nesta casa. Se não estivéssemos aqui enclausurados certamente nem repararias em mim. Gostava que soubesses o quanto te quero, não é pouco, e como é difícil para mim guardar estes sentimentos que me apertam o peito, revoltam o estômago e me deixam com um enorme nó na garganta. Esta carta? Vou deixa-la a apodrecer entre os meus apontamentos de inglês. Como em tantas outras ocasiões, falta-me a coragem para me mostrar e para mostrar aos outros o quanto lhes quero bem.

Perdoa-me a cobardia.

Sempre teu,

Peter

segunda-feira, 15 de junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Conversa no banco traseiro de um carro entre uma criança de 6 anos e um jovem de 27:

- Sabes? O meu pai morreu...
- Sei.
- Ele agora está lá em cima. - fitou o céu. - É uma daquelas estrelas.
- Qual?
- São tantas... tantas... Aquela! Aquela ali! A mais brilhante, ali!

(Silêncio)

- Um dia vou à Austrália! A Austrália é quase noutro planeta!
- Sim? Sabes que vais ter de ir de avião?
- Avião? Sim... Nunca andei de avião. Pode ser!
- Vais precisar de dinheiro, senão não entras no avião.
- Dinheiro?

(Silencio prolongado)

- Levo uma moeda de um euro.
- Uma? Parece-me que assim não te deixavam entrar no avião...
- Ai, não? Duas moedas?
- Duas mil!
- Fogo! Então também vou precisar de moedas de dois euros.

(Silêncio)

- Se pudessemos voar não era preciso irmos de avião.
- Pois não!
- Os anjos voam. O meu pai morreu e agora é um anjo, tem asas e voa. Ele pode ir à Austrália.
- Sempre que quiser.

Ao jovem D., que em tão tenra idade perdeu seu pai, devo este texto

quarta-feira, 3 de junho de 2009

AVida é demasiado curta para ambiguidades.

Sabendo eu disto, porque insisto nelas?

sábado, 30 de maio de 2009

Há dias em que a omnipresença dava jeito. Ontem foi um deles.
Queria estar onde estive e onde poderia ter estado. Aqui, ali, acolá e ainda me conseguia deitar cedo, noutro sitio qualquer, para descansar a cabeça que bem precisava!
Cheira-me que hoje vai ser ao contrário, existe um antónimo para omnipresença? Estar em lado nenhum? É isso que hoje vou fazer, vou ficar em lado nenhum, à espera... A fazer coisa nenhuma!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

- Good morning!
- Good morning, Sir! Wellcome to Hell. I'm Lucifer the manager. May I assist you?
- Yes please. I'd like a suite for one with jacuzzi.
- A moment please.

- Sir, I'm sorry but we have no suites available for your fucking specie...
- Hum... so... what do you have?
- One moment please. I'll check.

- OK. Here we are. I've got a filthy room on -12th floor with no jacuzzi, no windows, no bed and no air conditioner.
- Oh, what the Hell! What choice do I have? I'll take it!
(cynical laughing)
- Nice. Room 1213. One reservation for eternity. Can I see your ID please?
- Most certenaly. Here you are.
- Thank you and here's your key, Sir. Breackfast is served between 9 a.m. and 9:10 a.m. on the -50th floor.
- OK. Can you call some one to take my bag down to my room?
- Take it yourself you lazy selfish bastard!
- OK! No need to be rude!
- The stairway to your floor is down the hall. Thank you for your preference, Sir. Hope you enjoy your staying here as much as we're already enjoying your presence.
- Most certainly will. Most certainly will.
Tem quase uma semana, mas isso não importa nada...
A partir dos 20 segundos contenho-me com dificuldade...



É por estas e por outras que deixei de ver as noticias há uns tempos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

domingo, 26 de abril de 2009

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

domingo, 19 de abril de 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

- Traz-me uma cerveja, puta! - Vociferou.
- Oi?!? - Foi tudo o que foi capaz de dizer
- Traz-me uma cerveja, PU-TA! - Repetiu, quase soletrando o impropério.
- Você não fala assim p'ra mim, 'viu? Eu tenho dignidade! - Respondeu, denunciando o sotaque típico do Nordeste brasileiro.
- Dignidade?!? - Repetiu, imitando na perfeição o sotaque.
O grupo que o acompanhava riu-se ruidosamente.
- Dignidade? - Disse uma vez mais retirando do bolso uma nota de cinquenta euros, que atirou para o chão. - Quero ver isso!
Olhou-o indignada, baixou-se para colher a nota. Sentiu um empurrão, caiu de gatas.
Risos e, entre eles, uma voz:
- Olha! A dignidade dela rasteja e está à venda!
Ergueu-se, foi ao balcão, apanhou uma cerveja e, entre risos e apalpões, entregou-lha.
Nessa madrugada, ao deitar-se, ela chorou.
Nessa madrugada, antes de se deitar, ele beijou os filhos e a mulher.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Levou-a à boca.
Fios de suor escorriam-lhe abundantemente pelo rosto. O sabor acre metálico, o medo. Fez um clique. Depois veio um estrondo.
Ao contrário do que esperava a sala continuava lá. Olhou em volta, tinha um zumbido ensurdecedor nos ouvidos, cheirava intensamente a carne queimada, o sabor acre do metal mantinha-se, agora disperso em mil outras sensações. Um líquido fresco escorria-lhe pelo pescoço e peito nu, sentia-o, mas não o quis ver. Ainda estava vivo!
Procurou de novo forças para levar a arma à cabeça, mas a sala, desta feita, começou a esfumar-se, a ficar turva, faltavam-lhe as forças para terminar Aquilo. Tremeu. A sala desapareceu, ficou negra. Sentiu-se cair da cadeira com estrondo. Depois vieram os passos, os gritos, a agitação, o choro e finalmente o nada.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Infantil

- Este porta-chaves pode ficar para mim?
- É teu! Tu é que esqueceste cá dele da ultima vez...
- Ah, pois!

Pode ser tudo para ti... fazemos de conta que ficou cá tudo esquecido da ultima vez!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

What is truth? I don't know and I'm sorry I brought it up.

"Or, perhaps, I cannot now bring these points to mind, because, in truth, the character of my beloved, her rare learning, her singular yet placid cast of beauty, and the thrilling and enthralling eloquence of her low musical language, made their way into my heart by paces so steadily and stealthily progressive that they have been unnoticed and unknown."

in Ligeia
Edgar Allan Poe

sábado, 7 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Abyssus abyssum invocat

O espaço que se segue é da inteira responsabilidade dos fantasmas que habitam na minha cabeça.
Por motivos que se tornarão óbvios, não devem tentar isto em casa.
Os leitores mais sensíveis não deverão seguir além deste ponto.


ªÇP- gy
(6 murros no teclado... sempre pensei que tivessem outro efeito!)


*ivgyoiºç3p04£j
(6 chapadas no teclado)


hgbjnmhb jhgd
(6 cabeçadas no dito teclado)


Posto isto, tudo volta ao normal...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Huri

Caminhavam juntos na noite de uma qualquer cidade deserta. O frio apertou. Sem uma palavra ele percebeu que se lhe gelava a pele. Abraçou-a. Caminharam juntos...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

26-01-2009 16:49

Barrabás diz:
eu tenho honra
Barrabás diz:
no Amor e no jogo
Judas diz:
tu és é parvo
Judas diz:
no amor e no jogo
Barrabás diz:
é uma outra maneira de ver a coisa...

Licor de mel!!! (caseiro)

UIII!

domingo, 25 de janeiro de 2009

Por isto, odeio-me!

Não posso, nem devo deixar de atribuir um agradecimento especial ao meu amigo Barrabás que não fazendo parte da minha vida como outrora, fará sempre parte do meu pensamento, coração e memória. Pelos velhos e novos tempos, obrigada Barrabás!


Gostava de te conseguir ter rancor, ódio ou algo mau... não sou capaz, por isto, odeio-me!

Um brinde! Às velhas e às novas feridas!

...

sábado, 24 de janeiro de 2009

Ambição

Aos quatros anos já "lia" histórias para adormecer o irmão, por sinal nove anos mais velho. Pegava num livro de banda desenhada e lia os desenhos em cada quadrado da história, mas esses não eram os livros que ambicionava. Esses eram fáceis. Era aquele lá no alto da estante que parecia enorme, como todas as coisas parecem aos olhos de uma criança de quatro anos. Não lhe chegava e mesmo que lhe chegasse as ilustrações eram escassas e as palavras incompreensíveis.
Veio a escola, a morte, a vida e os ensinamentos que delas se retiram. Aprendeu a ler. Cresceu. O livro era agora mais pequeno do que parecia. Já lhe chegava. As letras juntaram-se para formar palavras, as palavras frases, as frases estrofes. Tinha seis anos.

"As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;"

Sem compreender exactamente o que eram aquelas palavras, elas penetraram-lhe a alma. Até hoje!

Foi o primeiro livro que li... Acho que nunca o cheguei a terminar... Talvez um destes fins de semana.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

(...)
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
(...)

Alberto Caeiro

Se fosse uma viagem, qual seria?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Fragmento

Não sei porque me fui lembrar disto hoje.
Mais de oito anos volvidos e não esqueço o que me contaram.
Marcaram-me para sempre, mais que as palavras que um moribundo no leito da morte me dedicou, os sentimentos que te uniam a mim, que só nessa altura compreendi verdadeiramente.
Não te preocupes! Sou um homem, cresci, aprendi muito desde então e, apesar de não estares aqui , foste sempre uma ajuda preciosa.
Quando me lembro contenho as lágrimas com dificuldade.
Preferia que nunca mo tivessem contado. Sabes o que é viver com o peso das ultimas palavras de alguém que amamos sobre as costas? Reconheço, no entanto, que me inspiraram naqueles momentos em que as forças e as certezas me fugiam.

Aqui fica o que nunca te disse em vida: Obrigado, até sempre...

Choro

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

999.999

Ou serão só 999.998...?

Esta noite sonhei que estava nu.
No entanto, estava Estranhamente confortável.
Talvez não tenha sido um sonho...afinal não dormi.

Reconheço. Atrás das letras é muito mais fácil.

E agora?- perguntei.


(um post dedicado)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

1001 maneiras de cozinhar bacalhau

Há dias em que mais vale não sair de casa... não que isso fosse evitar alguma coisa, simplesmente ocorreriam desgraças diferentes no conforto do nosso lar.
Não, não me aconteceu nada... ainda!
E nada do que eu faça o vai evitar... vai acontecer e pronto!
O quê? Não sei!
Conversa estranha, esta!
Mas é esse mesmo o objectivo!
Não tem de fazer sentido, se nada do que me passa pela cabeça e na Vida o faz...
OU então, faz! Eu é que não o percebo!
No final, dizem-me, tudo baterá certo!
BATER??? "Bater certo" não é um bocado violento? Eu não quero que nada bata!
Só quero ser feliz... um pouco, muito... se calhar já o sou, mas não o sinto plenamente!
Sou um pessimista positivo, apaixonado, felizardo dentro dos meus infortúnios... será isso a felicidade?
Estará o leitor confuso? Não faz mal! Eu também estou!

domingo, 18 de janeiro de 2009

Cem Anos de Solidão



Sem palavras!
Tudo o que pudesse dizer sobre esta magnifica obra, seria insuficiente.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sou um privilegiado

Fui adoptado por um sobrinho sem tio
Fui adoptado por um pai sem filha

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O Dia

Gosto quando os dias batem certo comigo. Cinzento, chuvoso, nublado e uma pitadinha de frio. Pena que não vou poder apreciá-lo à vontade...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Du er meget smukke

Há dias assim!
Acordamos, lavamos, vestimos, comemos, saímos, chegamos, trabalhamos, voltamos, reentramos, comemos, dormimos.
Para dizer a verdade, há demasiados dias assim!
Hoje alterei a rotina!
Entre o sair e o chegar, coloquei um "gritar". E se gritei!
Acelerei e gritei, sem nunca me preocupar com os que me rodeavam.
Sensação anormal esta de fazer de conta que os outros não existem, que sou Só eu...
Amanhã entre o voltamos e o reentramos vou colocar um cantamos!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Será?

Sou, no geral, uma pessoa atenta aos pormenores. Não me refiro ao novo furo que fizeste na orelha ou à mudança no tom de rimmel, mas a pormenores do Mundo que me rodeia, pormenores mais gerais. A questão que me atormenta é: Será que os pormenores também reparam em mim?
O casal de jovens, por quem passo todas as manhãs, eu de carro em direcção ao emprego, eles em direcção à paragem de autocarro. Seguem de mão dada, ele com o seu ar imberbe, mas apaixonado, ela abraçada a ele com um claro contentamento nos olhos e o seu ar de menina. Parecem felizes, decerto que o são. Não importa que amanhã acabe tudo, porque hoje eles estão felizes. Será que alguma vez repararam em mim? Passo todos os dias por eles! Cumprimento-os com o meu olhar, de quem já foi miúdo e apaixonado, não retribuem.
No trânsito reconheço rostos, carros e matriculas, que partilham comigo, diariamente a tormenta do pára-arranca. Será que algum deles já reparou em mim? No rapaz que segue dentro da carrinha cantando, rindo, por vezes chorando?
Próximo de chegar ao emprego, cruzo-me religiosamente com a Senhora do Punto Amarelo. Uma vezes segue sozinha, outras acompanhada por uma colega de trabalho. Já percebi onde trabalha e qual o seu horário. Será que alguma vez reparou sequer em mim? Não me interpretes mal, não faço questão que repare em mim, mas gostava de saber se sou um daqueles rostos-familiares-não-sei-bem-de-onde. Mera curiosidade...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O Sapo e o Escorpião

Num dos lados de um riacho um escorpião pediu ajuda a um sapo para atravessar para a outra margem.

-Só se eu fosse parvo... vais-me picar e eu vou-me afogar!

- Isso é ridículo! Se eu te picasse ambos nos afogaríamos!

O sapo acabou por anuir e começaram a travessia.
A meio do percurso o escorpião picou o sapo com o seu espigão, largando o seu veneno.
O sapo começou a sucumbir, mas ainda encontrou forças para perguntar:

- Porque me fizeste isso, mesmo sabendo que poderás não chegar ao outro lado sem a minha ajuda?

O escorpião desculpou-se, acrescentando:

- Está na minha natureza!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

As coisas que nunca te disse

O bem que me soube aquele abraço roubado...
O bem que me fazem os teus olhos... o teu sorriso... a tua companhia... a tua voz...
A falta que me fazes nestes dias cinzentos.
Adoro conhecer-te...
A vontade que tenho de te roubar e levar a conhecer o Mundo.
Dizer-te isto e muito mais, soprado ao ouvido.