quinta-feira, 22 de outubro de 2009

História a 3 tempos

Nasceu num dia como outro qualquer, numa terra não muito longe daqui, onde o Sol nascia e se punha todos os dias, num tempo em que ainda se acreditava. Cresceu atento, preocupado, calculando... Aos 14 anos saiu de casa levando apenas pão, chouriço, as recomendações paternas e as preocupações da progenitora. Saiu, encetando a busca que toda a Vida sonhara e para a qual tantos cálculos fizera. Indagou, cruzando ruas e ruelas, campos, cidades e ilhas, por tempo indeterminado, nunca perdendo a esperança. Momentos houve, contudo, em que lhe pareceu uma busca sem fim. Troçaram dele e do seu sonho mas isso não bastou para o demover. Avançou, procurou, lutou, penou, fraquejou, caiu, ergueu-se!
Naquela manhã, igual a tantas outras, caminhava perdido nas ruas de uma grande cidade e eis que, mesmo ali na esquina, estava Quem tanto procurou... no sitio mais improvável, ali estava Ele! Tantos cálculos, tantas perguntas sem resposta e afinal poderia ter sido tão fácil. Uma figura alta, bem constituído, um ar sábio e sereno. Cachimbo pendendo da boca, barba e bigode brancos amarelecidos pelo tabaco, numa mão uma bengala de bambu, na outra uma garrafa de vinho menos de meia.
Correu em direcção ao Velho, quando estava mesmo próximo, ajoelhou-se:
- Senhor, procurei tanto tempo, por toda a parte...
- Levanta-te interrompeu-o Velho.
Levantou-se e continuou:
- Finalmente!
- Que Me queres?- perguntou o Velho, interrompendo-o de novo.
- Oh, busco apenas a resposta a uma questão. Uma resposta que apenas o Senhor pode saber.
- Força! Dispara! -retorquiu o Velho com indiferença.
- Algo que sempre quis saber... rogo-Lhe que me responda e me ajude, Senhor!
- Sim...? Não posso responder se não souber a pergunta!
- Qual o significado da Vida?
- Olha ali... - disse o Velho apontando para as costas do homem que tanto o procurara.
Ele voltou-se para trás:
- Onde? - Não via nada particularmente interessante e quando se voltou de novo o Velho já não estava.
Esquerda, direita, voltas e mais voltas, correu, gritou e por fim, prostrado, deixou-e cair na mesma esquina onde O havia visto...
- Porquê? - sussurrou.
Ali ficou dias, meses... talvez anos, ele não sabe.
Um dia, uma mão macia e quente tocou-lhe no ombro descoberto pelo estado miserável dos seus trapos. A pele branca da mão dela contrastava com o ombro enegrecido, pela sujidade e pelo Sol, dele.
- Anda, levanta-te... vem comigo. - Disse-lhe com uma voz rouca mas cheia de mel, apenas comparável ao belo e fatal canto das sereias que tentaram atrair Ulisses a uma morte certa.
Ele fitou-lhe os olhos, correndo o risco de ser injusto, direi apenas que os achou encantadores. Reuniu as forças que lhe restavam e levantou-se. Acompanhou-a pelas ruas de braço dado. Teria ido até ao fim do Mundo assim.
Chegaram a um prédio rústico de três andares, subiram as escadas até ao sótão. Ela meteu a chave na fechadura e rodou, ele manteve-se sereno e calado, um passo atrás dela, enquanto observava cada movimento. Entraram e ela encaminhou-o de imediato para a casa de banho minúscula, como o era, aliás, todo o andar. Despiu-o e deu-lhe banho, embrulhou-o numa toalha e mandou-o ficar ali enquanto ela própria se despia e se banhava.
Ele observou-a fascinado, nunca vira uma mulher nua. A água percorria-lhe as curvas voluptuosas, de seguida veio a espuma contornando os mamilos rosados, saltitando pelas nádegas arrebitadas. Sentiu algo entre as pernas, já o sentira antes, mas não em circunstâncias semelhantes. Abriu a toalha para ver o que se passava, ela mirou-o nesta altura com uns olhos de menina atrevida. Apercebendo-se, ele atirou com a toalha ao chão e, sem saber muito bem porquê, entrou no duche e agarrou-a. Entregaram-se. Nas noites que se seguiram entregaram-se uma e outra vez, no quarto minúsculo, na sala minúscula e na cozinha minúscula. Voltaram a faze-lo no duche. Dessa vez, depois de terminado ela saiu de casa, coisa que não fazia desde que ele ali chegara.
O Sol pôs-se, vieram as estrelas e a Lua, voltou o Sol, mas dela nem sinal... Esperou nu na cama. Ela não mais apareceu...
Foi invadido por saudade súbita e extremamente forte.
Minha mãe, meu pai como estarão?
Revolveu o minúsculo apartamento em busca de roupa que lhe servisse: umas calças largas de homem e uma camisa velha e demasiado justa tiveram de servir.
Saiu e correu pelas escadas e correu, correu, correu como nunca tinha corrido antes. Só parou quando reconheceu a montanha que isolava a sua terra-natal do resto do Mundo. Nessa noite dormiu, sonhou com o calor da recepção de seus pais, sonhou com a sua cama aconchegante e agora, certamente, pequena de mais para ele. Teriam tido mais filhos? Haveria irmãos? Oh, que maravilhoso seria!
Acordou ainda o Sol não tinha nascido e correu de novo, correu...
Já conseguia ver a aldeia, embrenhou-se, finalmente, nas suas ruas de pó encarnado. Quando chegou ao largo principal o seu mundo desabou, sentiu um calor dilacerante a subir-lhe do estômago, como se tivesse sido envenenado, a cabeça andou à roda e desmaiou. A casa, a sua casa, já não existia, no seu lugar apenas ruínas.
Quando acordou do desmaio, rodeado de aldeões, olhou de novo para as ruínas e fez perguntas a todos, novos e velhos! Ninguém se lembrava de quem habitara aquela casa, estava assim desde que o mais velho dos anciões se recordava. A custo levantou-se. Ao caminhar para as ruínas mirou-se no reflexo de uma janela, envelhecera muito desde que partira dali. Passou o local onde estaria a porta de entrada, viu sua mãe a sorrir-lhe, do local onde fora a cozinha, enquanto preparava o seu guizado preferido. Caminhou mais um pouco e, do pátio central, o pai acenou-lhe eufórico, correu para lá e abraçou-o. Estava demasiado cansado, desculpou-se, voltou para o interior da casa e foi-se deitar na sua velha cama... ali ficou a ver as silvas e as ervas crescerem-lhe por cima do corpo magro e lívido.
Ninguém já se recorda quanto tempo ficou aquele estranho homem ali, mas todos se lembram do dia em que desapareceu.
Imediatamente antes do Sol nascer, ergueu-se com os olhos no infinito, muitos juram que já cegara derivado às privações que sofrera, e caminhou com passos constantes e firmes em direcção ao mar. Chegado à areia parou, inspirou profundamente e retomou a marcha, desta feita mar adentro. Os mesmos passos firmes com que ali chegara. O mar estava calmo, quase não havia ondas e o homem caminhava. Caminhou até que a sua cabeça foi engolida pela serenidade do oceano.
O seu corpo nunca deu à costa, ninguém sabe quem foi, o que o moveu ou quais as suas conquistas. "Desapareceu numa madrugada fria." é tudo quanto sabem dizer.

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