sábado, 7 de novembro de 2009

Morreu e renasceu mil vezes.
Acordou no meio das rochas à beira mar. Chovia.
Rasgou o peito e deixou que a chuva impregnada de sal das ondas que rebentavam à sua frente lhe lavasse o coração.
No horizonte viam-se os barcos dos pescadores que passaram a noite na faina a regressar à praia antes que o temporal se adensasse.
Tinha fome, pegou no arco e nas flechas e embrenhou-se na mata que abrigava a praia.
Devia ser o seu dia de sorte, em menos de nada já tinha uma lebre. Esfolou e preparou a carcaça e acendeu uma fogueira para a assar.
Pouco antes de terminar o seu manjar, foi interrompido por ruídos detrás de um arbusto. Apressou-se a sacar do punhal, mas antes que o pudesse fazer o seu espião revelou-se. Uma sombra escura e corpulenta, certamente com mais de seis pés de altura, ergueu-se. Tremeu, um enorme urso, certamente atraído pelo cheiro de uma refeição fácil, preparava-se agora para o atacar. Restava-lhe uma única hipótese: correr! Assim fez, sentido sempre o peso das patadas do animal no seu encalço. Não tinha ainda corrido muitos metros, quando deu por si à beira de um precipício. Lá em baixo estava o mar e, pareceu-lhe, as rochas onde se abrigara para passar a noite. Voltou-se. O urso aproximava-se agora de forma lenta e calculista, sentindo a sua presa encurralada.
Hesitava entre deixar-se cair pelo penhasco ou saltar para as garras do animal quando, num breve instante, reparou que ao seu lado, quase rente ao chão, estava uma amora madura, negra, brilhante e carnuda. Um único fruto pendente daquela silva. Enquanto o seu perseguidor continuava a aproximar-se baixou-se, colheu o fruto e saboreou-o, exclamando:
- Que fruto tão saboroso!

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