quinta-feira, 25 de junho de 2009

As horas passadas em frente a este ecrã, o cursor a piscar, à espera de conseguir discorrer algo. Largar palavras, frases.
Não, hoje não consigo!
Há dias em que nem as palavras e as letras servem de consolo. Geralmente não custa nada esconder-nos atrás delas e deixar que falem por nós, que digam aquilo que não somos capazes de dizer com a alma ou com os olhos. Desses sim, saem as mais verdadeiras emoções, as que não precisam de ser deformadas pelas línguas, lápis ou teclados. Há sentimentos que nem com todas as palavras do Mundo conseguem ser explicados.

Decididamente, hoje não. Não desfigurarei nada. Fico-me por aqui...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Querida Anne,

A dificuldade que tenho habitualmente em expressar-me oprime-me ainda mais quando estamos ambos, sós, fechados naquele quarto olhando o céu estrelado. De certo me tomarás por indiferente ou insensível, mas não o sou. Não tem sido fácil este ano e meio, para nenhum de nós. Meus pais, como toda a gente neste sitio já reparou, não cessam as suas hostilidades, não só um para com o outro, mas também para com o resto dos habitantes, onde me incluo. As suas provocações ferem-me como lâminas afiadas. Não respondo porque sei que apenas iriam provocar mais conflitos e mau-estar.
É em ti e contigo que consigo ser eu mesmo e esquecer-me por momentos da situação dramática em que esta guerra nos colocou. As horas que passamos juntos a estudar ou ,deverei antes dizer, que passas a martelar o inglês na minha cabeça dura, parecem nunca ter fim... preferia que durassem sempre, só tu e eu. As privações a que nos temos sujeitado fizeram de mim mais homem, já não sou o pirralho mimado e preguiçoso de há um ano e meio e em muito o devo a ti! Admiro-te pela coragem e força que sempre demonstraste, desde o primeiro dia, enfrentando tudo e todos para defender aquilo e aqueles em que acreditas. Vejo-te como um exemplo a seguir e aguardo o dia em que a minha força e inteligência possam chegar aos calcanhares das tuas, então, talvez, me possas olhar com outros olhos. Ver-me como um homem. Um homem que vê em ti uma mulher e que te quer mais que tudo.
As ultimas semanas, que temos passado juntos no quarto do sótão, têm-me deixado completamente fora de mim, sinto vontade de ao menos te abraçar. Sei que não tolerarias tamanha ousadia e provavelmente perder-te-ia, sei que não faço o teu género. Vês em mim, tão somente, um bom companheiro, dentro das restritas possibilidades que se encontram nesta casa. Se não estivéssemos aqui enclausurados certamente nem repararias em mim. Gostava que soubesses o quanto te quero, não é pouco, e como é difícil para mim guardar estes sentimentos que me apertam o peito, revoltam o estômago e me deixam com um enorme nó na garganta. Esta carta? Vou deixa-la a apodrecer entre os meus apontamentos de inglês. Como em tantas outras ocasiões, falta-me a coragem para me mostrar e para mostrar aos outros o quanto lhes quero bem.

Perdoa-me a cobardia.

Sempre teu,

Peter

segunda-feira, 15 de junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Conversa no banco traseiro de um carro entre uma criança de 6 anos e um jovem de 27:

- Sabes? O meu pai morreu...
- Sei.
- Ele agora está lá em cima. - fitou o céu. - É uma daquelas estrelas.
- Qual?
- São tantas... tantas... Aquela! Aquela ali! A mais brilhante, ali!

(Silêncio)

- Um dia vou à Austrália! A Austrália é quase noutro planeta!
- Sim? Sabes que vais ter de ir de avião?
- Avião? Sim... Nunca andei de avião. Pode ser!
- Vais precisar de dinheiro, senão não entras no avião.
- Dinheiro?

(Silencio prolongado)

- Levo uma moeda de um euro.
- Uma? Parece-me que assim não te deixavam entrar no avião...
- Ai, não? Duas moedas?
- Duas mil!
- Fogo! Então também vou precisar de moedas de dois euros.

(Silêncio)

- Se pudessemos voar não era preciso irmos de avião.
- Pois não!
- Os anjos voam. O meu pai morreu e agora é um anjo, tem asas e voa. Ele pode ir à Austrália.
- Sempre que quiser.

Ao jovem D., que em tão tenra idade perdeu seu pai, devo este texto

quarta-feira, 3 de junho de 2009

AVida é demasiado curta para ambiguidades.

Sabendo eu disto, porque insisto nelas?