terça-feira, 1 de junho de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
1918-2010
"Com a minha segunda mulher - uma companheira e mulher extraordinária!- percorri grande parte parte do continente num carro. Certa noite, esgotados da viagem ,decidimos que era altura de descansar e acabei por me meter numa clareira com muitas lombas, pensei que ia dar cabo do carro quando me meti por ali... recordo-me dos solavancos! Bem, finalmente, mesmo no meio de todas aquelas lombas, decidimos para e passar a noite. Qual não é o nosso espanto, ao acordar, darmos por nós no meio de um cemitério de uma aldeia ali perto!!! Entramos em pânico, não fizemos mais nada metemo-nos de novo no carro, acelerei dali para fora e só paramos passado umas horas ainda meio atordoados pela experiência..."
Por esta e outras tantas e ainda pelas que ficaram por contar, o meu muito obrigado! Até sempre!
Por esta e outras tantas e ainda pelas que ficaram por contar, o meu muito obrigado! Até sempre!
domingo, 24 de janeiro de 2010
O espelho. Ao lado direito do espelho a janela que dá para a rua e lá em baixo, na rua, as pessoas caminhavam indiferentes e apressadas na penumbra da madrugada.
Fitava-me ao espelho, o casaco longo e claro acabado de comprar era afinal cinzento... Tudo, à luz daquele quarto se revelava em tons de preto e branco. Eu estava cinzento.
Um silêncio ensurdecedor subiu repentinamente pela janela, olhei lá para baixo. Sombras, sombras irrequietas vagueando, era tudo o que conseguia ver. Pareceu-me reconhecer a minha própria sombra no meio daquele atropelo. Assustado virei-me de novo para o espelho, já não era eu que lá me reflectia. Uma imagem de um homem nu e cinzento, igual a mim ,foi o que os meus olhos lá encontraram. Já não era eu, os olhos da figura reflectida no espelho reviravam-se quase imperceptívelmente, sem deixarem no entanto de estar fixos em mim.
Tenso, cerrei os punhos com força, o homem do outro lado do espelho fez o mesmo.
Olhei para trás apenas para encontrar a parede nua do quarto, continuava sozinho no meu espaço.
Contemplei de novo o espelho, os olhos irrequietos do homem eram agora negros e frios, os lábios mexiam-se como se estivesse a tentar sussurrar-me algo, mas a sua voz era de tal forma impetuosa que quase instantaneamente me ensurdeceu. O que quer que me estivesse a tentar dizer perdeu-se ali, naquele instante.
Tentando acalmar-me olhei mais uma vez pela janela, do outro lado da rua a minha sombra, imóvel, aguardando.
Procurei de novo o espelho e lá estava ele... Ele? Não... Eu! Reconheci-me finalmente. Era eu do outro lado do espelho, eu, igual a mim, mas sem vida.
Ele sorriu-me.
Retribui.Fitava-me ao espelho, o casaco longo e claro acabado de comprar era afinal cinzento... Tudo, à luz daquele quarto se revelava em tons de preto e branco. Eu estava cinzento.
Um silêncio ensurdecedor subiu repentinamente pela janela, olhei lá para baixo. Sombras, sombras irrequietas vagueando, era tudo o que conseguia ver. Pareceu-me reconhecer a minha própria sombra no meio daquele atropelo. Assustado virei-me de novo para o espelho, já não era eu que lá me reflectia. Uma imagem de um homem nu e cinzento, igual a mim ,foi o que os meus olhos lá encontraram. Já não era eu, os olhos da figura reflectida no espelho reviravam-se quase imperceptívelmente, sem deixarem no entanto de estar fixos em mim.
Tenso, cerrei os punhos com força, o homem do outro lado do espelho fez o mesmo.
Olhei para trás apenas para encontrar a parede nua do quarto, continuava sozinho no meu espaço.
Contemplei de novo o espelho, os olhos irrequietos do homem eram agora negros e frios, os lábios mexiam-se como se estivesse a tentar sussurrar-me algo, mas a sua voz era de tal forma impetuosa que quase instantaneamente me ensurdeceu. O que quer que me estivesse a tentar dizer perdeu-se ali, naquele instante.
Tentando acalmar-me olhei mais uma vez pela janela, do outro lado da rua a minha sombra, imóvel, aguardando.
Procurei de novo o espelho e lá estava ele... Ele? Não... Eu! Reconheci-me finalmente. Era eu do outro lado do espelho, eu, igual a mim, mas sem vida.
Ele sorriu-me.
Assim permanecemos até acordarmos.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
sábado, 7 de novembro de 2009
Morreu e renasceu mil vezes.
Acordou no meio das rochas à beira mar. Chovia.
Rasgou o peito e deixou que a chuva impregnada de sal das ondas que rebentavam à sua frente lhe lavasse o coração.
No horizonte viam-se os barcos dos pescadores que passaram a noite na faina a regressar à praia antes que o temporal se adensasse.
Acordou no meio das rochas à beira mar. Chovia.
Rasgou o peito e deixou que a chuva impregnada de sal das ondas que rebentavam à sua frente lhe lavasse o coração.
No horizonte viam-se os barcos dos pescadores que passaram a noite na faina a regressar à praia antes que o temporal se adensasse.
Tinha fome, pegou no arco e nas flechas e embrenhou-se na mata que abrigava a praia.
Devia ser o seu dia de sorte, em menos de nada já tinha uma lebre. Esfolou e preparou a carcaça e acendeu uma fogueira para a assar.
Pouco antes de terminar o seu manjar, foi interrompido por ruídos detrás de um arbusto. Apressou-se a sacar do punhal, mas antes que o pudesse fazer o seu espião revelou-se. Uma sombra escura e corpulenta, certamente com mais de seis pés de altura, ergueu-se. Tremeu, um enorme urso, certamente atraído pelo cheiro de uma refeição fácil, preparava-se agora para o atacar. Restava-lhe uma única hipótese: correr! Assim fez, sentido sempre o peso das patadas do animal no seu encalço. Não tinha ainda corrido muitos metros, quando deu por si à beira de um precipício. Lá em baixo estava o mar e, pareceu-lhe, as rochas onde se abrigara para passar a noite. Voltou-se. O urso aproximava-se agora de forma lenta e calculista, sentindo a sua presa encurralada.
Hesitava entre deixar-se cair pelo penhasco ou saltar para as garras do animal quando, num breve instante, reparou que ao seu lado, quase rente ao chão, estava uma amora madura, negra, brilhante e carnuda. Um único fruto pendente daquela silva. Enquanto o seu perseguidor continuava a aproximar-se baixou-se, colheu o fruto e saboreou-o, exclamando:
- Que fruto tão saboroso!
Devia ser o seu dia de sorte, em menos de nada já tinha uma lebre. Esfolou e preparou a carcaça e acendeu uma fogueira para a assar.
Pouco antes de terminar o seu manjar, foi interrompido por ruídos detrás de um arbusto. Apressou-se a sacar do punhal, mas antes que o pudesse fazer o seu espião revelou-se. Uma sombra escura e corpulenta, certamente com mais de seis pés de altura, ergueu-se. Tremeu, um enorme urso, certamente atraído pelo cheiro de uma refeição fácil, preparava-se agora para o atacar. Restava-lhe uma única hipótese: correr! Assim fez, sentido sempre o peso das patadas do animal no seu encalço. Não tinha ainda corrido muitos metros, quando deu por si à beira de um precipício. Lá em baixo estava o mar e, pareceu-lhe, as rochas onde se abrigara para passar a noite. Voltou-se. O urso aproximava-se agora de forma lenta e calculista, sentindo a sua presa encurralada.
Hesitava entre deixar-se cair pelo penhasco ou saltar para as garras do animal quando, num breve instante, reparou que ao seu lado, quase rente ao chão, estava uma amora madura, negra, brilhante e carnuda. Um único fruto pendente daquela silva. Enquanto o seu perseguidor continuava a aproximar-se baixou-se, colheu o fruto e saboreou-o, exclamando:
- Que fruto tão saboroso!
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
História a 3 tempos
Nasceu num dia como outro qualquer, numa terra não muito longe daqui, onde o Sol nascia e se punha todos os dias, num tempo em que ainda se acreditava. Cresceu atento, preocupado, calculando... Aos 14 anos saiu de casa levando apenas pão, chouriço, as recomendações paternas e as preocupações da progenitora. Saiu, encetando a busca que toda a Vida sonhara e para a qual tantos cálculos fizera. Indagou, cruzando ruas e ruelas, campos, cidades e ilhas, por tempo indeterminado, nunca perdendo a esperança. Momentos houve, contudo, em que lhe pareceu uma busca sem fim. Troçaram dele e do seu sonho mas isso não bastou para o demover. Avançou, procurou, lutou, penou, fraquejou, caiu, ergueu-se!
Naquela manhã, igual a tantas outras, caminhava perdido nas ruas de uma grande cidade e eis que, mesmo ali na esquina, estava Quem tanto procurou... no sitio mais improvável, ali estava Ele! Tantos cálculos, tantas perguntas sem resposta e afinal poderia ter sido tão fácil. Uma figura alta, bem constituído, um ar sábio e sereno. Cachimbo pendendo da boca, barba e bigode brancos amarelecidos pelo tabaco, numa mão uma bengala de bambu, na outra uma garrafa de vinho menos de meia.
Correu em direcção ao Velho, quando estava mesmo próximo, ajoelhou-se:
- Senhor, procurei tanto tempo, por toda a parte...
- Levanta-te interrompeu-o Velho.
Levantou-se e continuou:
- Finalmente!
- Que Me queres?- perguntou o Velho, interrompendo-o de novo.
- Oh, busco apenas a resposta a uma questão. Uma resposta que apenas o Senhor pode saber.
- Força! Dispara! -retorquiu o Velho com indiferença.
- Algo que sempre quis saber... rogo-Lhe que me responda e me ajude, Senhor!
- Sim...? Não posso responder se não souber a pergunta!
- Qual o significado da Vida?
- Olha ali... - disse o Velho apontando para as costas do homem que tanto o procurara.
Ele voltou-se para trás:
Correu em direcção ao Velho, quando estava mesmo próximo, ajoelhou-se:
- Senhor, procurei tanto tempo, por toda a parte...
- Levanta-te interrompeu-o Velho.
Levantou-se e continuou:
- Finalmente!
- Que Me queres?- perguntou o Velho, interrompendo-o de novo.
- Oh, busco apenas a resposta a uma questão. Uma resposta que apenas o Senhor pode saber.
- Força! Dispara! -retorquiu o Velho com indiferença.
- Algo que sempre quis saber... rogo-Lhe que me responda e me ajude, Senhor!
- Sim...? Não posso responder se não souber a pergunta!
- Qual o significado da Vida?
- Olha ali... - disse o Velho apontando para as costas do homem que tanto o procurara.
Ele voltou-se para trás:
- Onde? - Não via nada particularmente interessante e quando se voltou de novo o Velho já não estava.
Esquerda, direita, voltas e mais voltas, correu, gritou e por fim, prostrado, deixou-e cair na mesma esquina onde O havia visto...
- Porquê? - sussurrou.
Esquerda, direita, voltas e mais voltas, correu, gritou e por fim, prostrado, deixou-e cair na mesma esquina onde O havia visto...
- Porquê? - sussurrou.
Ali ficou dias, meses... talvez anos, ele não sabe.
Um dia, uma mão macia e quente tocou-lhe no ombro descoberto pelo estado miserável dos seus trapos. A pele branca da mão dela contrastava com o ombro enegrecido, pela sujidade e pelo Sol, dele.
- Anda, levanta-te... vem comigo. - Disse-lhe com uma voz rouca mas cheia de mel, apenas comparável ao belo e fatal canto das sereias que tentaram atrair Ulisses a uma morte certa.
Ele fitou-lhe os olhos, correndo o risco de ser injusto, direi apenas que os achou encantadores. Reuniu as forças que lhe restavam e levantou-se. Acompanhou-a pelas ruas de braço dado. Teria ido até ao fim do Mundo assim.
Chegaram a um prédio rústico de três andares, subiram as escadas até ao sótão. Ela meteu a chave na fechadura e rodou, ele manteve-se sereno e calado, um passo atrás dela, enquanto observava cada movimento. Entraram e ela encaminhou-o de imediato para a casa de banho minúscula, como o era, aliás, todo o andar. Despiu-o e deu-lhe banho, embrulhou-o numa toalha e mandou-o ficar ali enquanto ela própria se despia e se banhava.
Ele observou-a fascinado, nunca vira uma mulher nua. A água percorria-lhe as curvas voluptuosas, de seguida veio a espuma contornando os mamilos rosados, saltitando pelas nádegas arrebitadas. Sentiu algo entre as pernas, já o sentira antes, mas não em circunstâncias semelhantes. Abriu a toalha para ver o que se passava, ela mirou-o nesta altura com uns olhos de menina atrevida. Apercebendo-se, ele atirou com a toalha ao chão e, sem saber muito bem porquê, entrou no duche e agarrou-a. Entregaram-se. Nas noites que se seguiram entregaram-se uma e outra vez, no quarto minúsculo, na sala minúscula e na cozinha minúscula. Voltaram a faze-lo no duche. Dessa vez, depois de terminado ela saiu de casa, coisa que não fazia desde que ele ali chegara.
O Sol pôs-se, vieram as estrelas e a Lua, voltou o Sol, mas dela nem sinal... Esperou nu na cama. Ela não mais apareceu...
Foi invadido por saudade súbita e extremamente forte.
Minha mãe, meu pai como estarão?
Revolveu o minúsculo apartamento em busca de roupa que lhe servisse: umas calças largas de homem e uma camisa velha e demasiado justa tiveram de servir.
Saiu e correu pelas escadas e correu, correu, correu como nunca tinha corrido antes. Só parou quando reconheceu a montanha que isolava a sua terra-natal do resto do Mundo. Nessa noite dormiu, sonhou com o calor da recepção de seus pais, sonhou com a sua cama aconchegante e agora, certamente, pequena de mais para ele. Teriam tido mais filhos? Haveria irmãos? Oh, que maravilhoso seria!
Acordou ainda o Sol não tinha nascido e correu de novo, correu...
Já conseguia ver a aldeia, embrenhou-se, finalmente, nas suas ruas de pó encarnado. Quando chegou ao largo principal o seu mundo desabou, sentiu um calor dilacerante a subir-lhe do estômago, como se tivesse sido envenenado, a cabeça andou à roda e desmaiou. A casa, a sua casa, já não existia, no seu lugar apenas ruínas.
Quando acordou do desmaio, rodeado de aldeões, olhou de novo para as ruínas e fez perguntas a todos, novos e velhos! Ninguém se lembrava de quem habitara aquela casa, estava assim desde que o mais velho dos anciões se recordava. A custo levantou-se. Ao caminhar para as ruínas mirou-se no reflexo de uma janela, envelhecera muito desde que partira dali. Passou o local onde estaria a porta de entrada, viu sua mãe a sorrir-lhe, do local onde fora a cozinha, enquanto preparava o seu guizado preferido. Caminhou mais um pouco e, do pátio central, o pai acenou-lhe eufórico, correu para lá e abraçou-o. Estava demasiado cansado, desculpou-se, voltou para o interior da casa e foi-se deitar na sua velha cama... ali ficou a ver as silvas e as ervas crescerem-lhe por cima do corpo magro e lívido.
Ninguém já se recorda quanto tempo ficou aquele estranho homem ali, mas todos se lembram do dia em que desapareceu.
Imediatamente antes do Sol nascer, ergueu-se com os olhos no infinito, muitos juram que já cegara derivado às privações que sofrera, e caminhou com passos constantes e firmes em direcção ao mar. Chegado à areia parou, inspirou profundamente e retomou a marcha, desta feita mar adentro. Os mesmos passos firmes com que ali chegara. O mar estava calmo, quase não havia ondas e o homem caminhava. Caminhou até que a sua cabeça foi engolida pela serenidade do oceano.
O seu corpo nunca deu à costa, ninguém sabe quem foi, o que o moveu ou quais as suas conquistas. "Desapareceu numa madrugada fria." é tudo quanto sabem dizer.
Um dia, uma mão macia e quente tocou-lhe no ombro descoberto pelo estado miserável dos seus trapos. A pele branca da mão dela contrastava com o ombro enegrecido, pela sujidade e pelo Sol, dele.
- Anda, levanta-te... vem comigo. - Disse-lhe com uma voz rouca mas cheia de mel, apenas comparável ao belo e fatal canto das sereias que tentaram atrair Ulisses a uma morte certa.
Ele fitou-lhe os olhos, correndo o risco de ser injusto, direi apenas que os achou encantadores. Reuniu as forças que lhe restavam e levantou-se. Acompanhou-a pelas ruas de braço dado. Teria ido até ao fim do Mundo assim.
Chegaram a um prédio rústico de três andares, subiram as escadas até ao sótão. Ela meteu a chave na fechadura e rodou, ele manteve-se sereno e calado, um passo atrás dela, enquanto observava cada movimento. Entraram e ela encaminhou-o de imediato para a casa de banho minúscula, como o era, aliás, todo o andar. Despiu-o e deu-lhe banho, embrulhou-o numa toalha e mandou-o ficar ali enquanto ela própria se despia e se banhava.
Ele observou-a fascinado, nunca vira uma mulher nua. A água percorria-lhe as curvas voluptuosas, de seguida veio a espuma contornando os mamilos rosados, saltitando pelas nádegas arrebitadas. Sentiu algo entre as pernas, já o sentira antes, mas não em circunstâncias semelhantes. Abriu a toalha para ver o que se passava, ela mirou-o nesta altura com uns olhos de menina atrevida. Apercebendo-se, ele atirou com a toalha ao chão e, sem saber muito bem porquê, entrou no duche e agarrou-a. Entregaram-se. Nas noites que se seguiram entregaram-se uma e outra vez, no quarto minúsculo, na sala minúscula e na cozinha minúscula. Voltaram a faze-lo no duche. Dessa vez, depois de terminado ela saiu de casa, coisa que não fazia desde que ele ali chegara.
O Sol pôs-se, vieram as estrelas e a Lua, voltou o Sol, mas dela nem sinal... Esperou nu na cama. Ela não mais apareceu...
Foi invadido por saudade súbita e extremamente forte.
Minha mãe, meu pai como estarão?
Revolveu o minúsculo apartamento em busca de roupa que lhe servisse: umas calças largas de homem e uma camisa velha e demasiado justa tiveram de servir.
Saiu e correu pelas escadas e correu, correu, correu como nunca tinha corrido antes. Só parou quando reconheceu a montanha que isolava a sua terra-natal do resto do Mundo. Nessa noite dormiu, sonhou com o calor da recepção de seus pais, sonhou com a sua cama aconchegante e agora, certamente, pequena de mais para ele. Teriam tido mais filhos? Haveria irmãos? Oh, que maravilhoso seria!
Acordou ainda o Sol não tinha nascido e correu de novo, correu...
Já conseguia ver a aldeia, embrenhou-se, finalmente, nas suas ruas de pó encarnado. Quando chegou ao largo principal o seu mundo desabou, sentiu um calor dilacerante a subir-lhe do estômago, como se tivesse sido envenenado, a cabeça andou à roda e desmaiou. A casa, a sua casa, já não existia, no seu lugar apenas ruínas.
Quando acordou do desmaio, rodeado de aldeões, olhou de novo para as ruínas e fez perguntas a todos, novos e velhos! Ninguém se lembrava de quem habitara aquela casa, estava assim desde que o mais velho dos anciões se recordava. A custo levantou-se. Ao caminhar para as ruínas mirou-se no reflexo de uma janela, envelhecera muito desde que partira dali. Passou o local onde estaria a porta de entrada, viu sua mãe a sorrir-lhe, do local onde fora a cozinha, enquanto preparava o seu guizado preferido. Caminhou mais um pouco e, do pátio central, o pai acenou-lhe eufórico, correu para lá e abraçou-o. Estava demasiado cansado, desculpou-se, voltou para o interior da casa e foi-se deitar na sua velha cama... ali ficou a ver as silvas e as ervas crescerem-lhe por cima do corpo magro e lívido.
Ninguém já se recorda quanto tempo ficou aquele estranho homem ali, mas todos se lembram do dia em que desapareceu.
Imediatamente antes do Sol nascer, ergueu-se com os olhos no infinito, muitos juram que já cegara derivado às privações que sofrera, e caminhou com passos constantes e firmes em direcção ao mar. Chegado à areia parou, inspirou profundamente e retomou a marcha, desta feita mar adentro. Os mesmos passos firmes com que ali chegara. O mar estava calmo, quase não havia ondas e o homem caminhava. Caminhou até que a sua cabeça foi engolida pela serenidade do oceano.
O seu corpo nunca deu à costa, ninguém sabe quem foi, o que o moveu ou quais as suas conquistas. "Desapareceu numa madrugada fria." é tudo quanto sabem dizer.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
O barulho da água a correr no chuveiro... Abriu os olhos... 7:35!
Merda!
- Porque não me acordaste? Vou chegar atrasado outra vez!
Da casa de banho não chegou resposta.
Merda! Merda! Merda!
Num ápice enfiou as calças bege e a camisa azul, sem apertar os botões correu para o WC, mãos em concha, água fria na cara, uma reclamação em forma de berro vem da banheira.
- Desculpa! Estou atrasado! Porque não me acordaste??
De novo, não teve resposta.
Uns salpicos na retrete, nova corrida até ao quarto. Calçou as meias.
Onde está o outro sapato? Merda! Sempre a mesma merda!
- Porque não puxaste o autoclismo? Sempre a mesma porcaria!
- Desculpa! Estou atrasado, não tenho tempo!
Um resmungo imperceptível foi a resposta.
Ah! Aqui está!
Calçou-se, abotoou-se e passou pela cozinha onde agarrou uma fatia do bolo de ananás para o caminho. Saiu a correr, não sem antes ouvir mais um grito imperceptível vindo do quarto.
- Estou muito atrasado, desculpa! Também te amo! - respondeu, ao mesmo tempo que batia com a porta!
Eram 7 da manhã, acordou com o barulho do despertador dele.
Sempre a mesma porcaria... hoje não te vou acordar! Tens de aprender...
Foi até à casa de banho, mirou-se demoradamente ao espelho, sem se reconhecer. Perguntou-se mil vezes o que fazia ali, sempre sem ter resposta.
Tirou a camisa de dormir e lançou-se debaixo da água quente que jorrava do chuveiro.
O que estou a fazer aqui?
Vindo do quarto:
- Porque não me acordaste? Vou chegar atrasado outra vez!
Não respondeu.
Enquanto não fores despedido não vais aprender...
Breves minutos depois sentiu-o entrar na casa de banho e abrir a torneira, a agradável água quente do duche transformou-se numa torrente escaldante que lhe queimou as costas.
- Merda! És parvo ou quê?
- Desculpa! Estou atrasado! Porque não me acordaste??
Uma vez mais, optou por não responder.
É para aprenderes... não sou a tua mãezinha! Palerma...
Quando ele saiu a correr do WC deu por terminado o seu duche.Merda!
- Porque não me acordaste? Vou chegar atrasado outra vez!
Da casa de banho não chegou resposta.
Merda! Merda! Merda!
Num ápice enfiou as calças bege e a camisa azul, sem apertar os botões correu para o WC, mãos em concha, água fria na cara, uma reclamação em forma de berro vem da banheira.
- Desculpa! Estou atrasado! Porque não me acordaste??
De novo, não teve resposta.
Uns salpicos na retrete, nova corrida até ao quarto. Calçou as meias.
Onde está o outro sapato? Merda! Sempre a mesma merda!
- Porque não puxaste o autoclismo? Sempre a mesma porcaria!
- Desculpa! Estou atrasado, não tenho tempo!
Um resmungo imperceptível foi a resposta.
Ah! Aqui está!
Calçou-se, abotoou-se e passou pela cozinha onde agarrou uma fatia do bolo de ananás para o caminho. Saiu a correr, não sem antes ouvir mais um grito imperceptível vindo do quarto.
- Estou muito atrasado, desculpa! Também te amo! - respondeu, ao mesmo tempo que batia com a porta!
Eram 7 da manhã, acordou com o barulho do despertador dele.
Sempre a mesma porcaria... hoje não te vou acordar! Tens de aprender...
Foi até à casa de banho, mirou-se demoradamente ao espelho, sem se reconhecer. Perguntou-se mil vezes o que fazia ali, sempre sem ter resposta.
Tirou a camisa de dormir e lançou-se debaixo da água quente que jorrava do chuveiro.
O que estou a fazer aqui?
Vindo do quarto:
- Porque não me acordaste? Vou chegar atrasado outra vez!
Não respondeu.
Enquanto não fores despedido não vais aprender...
Breves minutos depois sentiu-o entrar na casa de banho e abrir a torneira, a agradável água quente do duche transformou-se numa torrente escaldante que lhe queimou as costas.
- Merda! És parvo ou quê?
- Desculpa! Estou atrasado! Porque não me acordaste??
Uma vez mais, optou por não responder.
É para aprenderes... não sou a tua mãezinha! Palerma...
Porco! Sempre a mesma merda!
- Porque não puxaste o autoclismo? Sempre a mesma porcaria! - Gritou.
- Desculpa! Estou atrasado, não tenho tempo!
- Não aguento mais! Não aguento... - Resmungou entre dentes.
Secou-se.
Sentiu que ele se preparava para sair, saiu a correr do WC e gritou:
- Não aguento mais! Vou fazer as malas, vou-me embora! Ouviste?
- Estou muito atrasado, desculpa! - Foi tudo o que ouviu.
domingo, 30 de agosto de 2009
quinta-feira, 2 de julho de 2009
quinta-feira, 25 de junho de 2009
As horas passadas em frente a este ecrã, o cursor a piscar, à espera de conseguir discorrer algo. Largar palavras, frases.
Não, hoje não consigo!
Há dias em que nem as palavras e as letras servem de consolo. Geralmente não custa nada esconder-nos atrás delas e deixar que falem por nós, que digam aquilo que não somos capazes de dizer com a alma ou com os olhos. Desses sim, saem as mais verdadeiras emoções, as que não precisam de ser deformadas pelas línguas, lápis ou teclados. Há sentimentos que nem com todas as palavras do Mundo conseguem ser explicados.
Decididamente, hoje não. Não desfigurarei nada. Fico-me por aqui...
Não, hoje não consigo!
Há dias em que nem as palavras e as letras servem de consolo. Geralmente não custa nada esconder-nos atrás delas e deixar que falem por nós, que digam aquilo que não somos capazes de dizer com a alma ou com os olhos. Desses sim, saem as mais verdadeiras emoções, as que não precisam de ser deformadas pelas línguas, lápis ou teclados. Há sentimentos que nem com todas as palavras do Mundo conseguem ser explicados.
Decididamente, hoje não. Não desfigurarei nada. Fico-me por aqui...
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