Querida Anne,
A dificuldade que tenho habitualmente em expressar-me oprime-me ainda mais quando estamos ambos, sós, fechados naquele quarto olhando o céu estrelado. De certo me tomarás por indiferente ou insensível, mas não o sou. Não tem sido fácil este ano e meio, para nenhum de nós. Meus pais, como toda a gente neste sitio já reparou, não cessam as suas hostilidades, não só um para com o outro, mas também para com o resto dos habitantes, onde me incluo. As suas provocações ferem-me como lâminas afiadas. Não respondo porque sei que apenas iriam provocar mais conflitos e mau-estar.
É em ti e contigo que consigo ser eu mesmo e esquecer-me por momentos da situação dramática em que esta guerra nos colocou. As horas que passamos juntos a estudar ou ,deverei antes dizer, que passas a martelar o inglês na minha cabeça dura, parecem nunca ter fim... preferia que durassem sempre, só tu e eu. As privações a que nos temos sujeitado fizeram de mim mais homem, já não sou o pirralho mimado e preguiçoso de há um ano e meio e em muito o devo a ti! Admiro-te pela coragem e força que sempre demonstraste, desde o primeiro dia, enfrentando tudo e todos para defender aquilo e aqueles em que acreditas. Vejo-te como um exemplo a seguir e aguardo o dia em que a minha força e inteligência possam chegar aos calcanhares das tuas, então, talvez, me possas olhar com outros olhos. Ver-me como um homem. Um homem que vê em ti uma mulher e que te quer mais que tudo.
As ultimas semanas, que temos passado juntos no quarto do sótão, têm-me deixado completamente fora de mim, sinto vontade de ao menos te abraçar. Sei que não tolerarias tamanha ousadia e provavelmente perder-te-ia, sei que não faço o teu género. Vês em mim, tão somente, um bom companheiro, dentro das restritas possibilidades que se encontram nesta casa. Se não estivéssemos aqui enclausurados certamente nem repararias em mim. Gostava que soubesses o quanto te quero, não é pouco, e como é difícil para mim guardar estes sentimentos que me apertam o peito, revoltam o estômago e me deixam com um enorme nó na garganta. Esta carta? Vou deixa-la a apodrecer entre os meus apontamentos de inglês. Como em tantas outras ocasiões, falta-me a coragem para me mostrar e para mostrar aos outros o quanto lhes quero bem.
Perdoa-me a cobardia.
Sempre teu,
Peter
A dificuldade que tenho habitualmente em expressar-me oprime-me ainda mais quando estamos ambos, sós, fechados naquele quarto olhando o céu estrelado. De certo me tomarás por indiferente ou insensível, mas não o sou. Não tem sido fácil este ano e meio, para nenhum de nós. Meus pais, como toda a gente neste sitio já reparou, não cessam as suas hostilidades, não só um para com o outro, mas também para com o resto dos habitantes, onde me incluo. As suas provocações ferem-me como lâminas afiadas. Não respondo porque sei que apenas iriam provocar mais conflitos e mau-estar.
É em ti e contigo que consigo ser eu mesmo e esquecer-me por momentos da situação dramática em que esta guerra nos colocou. As horas que passamos juntos a estudar ou ,deverei antes dizer, que passas a martelar o inglês na minha cabeça dura, parecem nunca ter fim... preferia que durassem sempre, só tu e eu. As privações a que nos temos sujeitado fizeram de mim mais homem, já não sou o pirralho mimado e preguiçoso de há um ano e meio e em muito o devo a ti! Admiro-te pela coragem e força que sempre demonstraste, desde o primeiro dia, enfrentando tudo e todos para defender aquilo e aqueles em que acreditas. Vejo-te como um exemplo a seguir e aguardo o dia em que a minha força e inteligência possam chegar aos calcanhares das tuas, então, talvez, me possas olhar com outros olhos. Ver-me como um homem. Um homem que vê em ti uma mulher e que te quer mais que tudo.
As ultimas semanas, que temos passado juntos no quarto do sótão, têm-me deixado completamente fora de mim, sinto vontade de ao menos te abraçar. Sei que não tolerarias tamanha ousadia e provavelmente perder-te-ia, sei que não faço o teu género. Vês em mim, tão somente, um bom companheiro, dentro das restritas possibilidades que se encontram nesta casa. Se não estivéssemos aqui enclausurados certamente nem repararias em mim. Gostava que soubesses o quanto te quero, não é pouco, e como é difícil para mim guardar estes sentimentos que me apertam o peito, revoltam o estômago e me deixam com um enorme nó na garganta. Esta carta? Vou deixa-la a apodrecer entre os meus apontamentos de inglês. Como em tantas outras ocasiões, falta-me a coragem para me mostrar e para mostrar aos outros o quanto lhes quero bem.
Perdoa-me a cobardia.
Sempre teu,
Peter

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